%08%
Ninguém me via quando eu não existia biograficamente. E era isso. Vivia pela casca de outra pessoa, que ao mesmo tempo me usava.

Nesse mundo de aparências e produção imagética de si, quem era vista, valorizada e convidada, para ménage à trois, era a casca.

Nós, eu e a casca, éramos dois e um. Eu me confundia e me alienava em meu veículo. Sabia que as pessoas me viam mas não me enxergavam.

Num momento, viramos dois, separados. Eu, a alma. Ela, o corpo. Uma alma, sem corpo, pode atravessar paredes, assustar crianças com sua forma projetada na parede do quarto, à noite, e pode possuir qualquer corpo.

Mas o que pode um corpo sem alma? Nada. Apodrece, fica morto, gelado.

Escolhi possuir aquele corpo que era exatamente como eu aspirava, mas estava ali “recém-mortinho”...

Ah! pelos céus! Eu não tinha nenhuma experiência nesse “rolé” de possuir corpos. Era recém-nascido. Antes me achava casca. Estava frágil e inseguro.

Porra! E se o corpo do jeito que eu queria apresentasse resistência em ser possuído? Quem ia, de bom grado, ceder lugar à uma alma rebelde e estranha? Tão jovem e tão triste?

No mais, cada segundo que demorava fora de um corpo levava uma eternidade. Quantos anos eu envelheci naqueles dias! Podia ter vagado, até desaparecer, se não desejasse comer, transar e amar alguém.

%10%
Tomei aquele corpo recém-largado. Ainda estavam quentes as pontas dos dedos quando os toquei. Ao contrário de antes, não houve uma fusão. Escorreguei como quiabo pra dentro daquela carcaça, sem resistência. Era desesperador.

Talvez, se eu não fosse tão vaidoso, ou se as cascas não importassem tanto, ou, ainda, se as posições de gênero não fossem dissimétricas, eu poderia não ter ficado tão frustrado com o que tinha.

Para não cair num poço fundo, sem corda, sem caçamba, eu, que só tinha acabado de começar, mas já sabia por experiências herdadas de outras vidas, que o corpo era a máquina mais potente da pós-modernidade, me empenhei em sua na bricolagem, em edificar-me enquanto sujeito.

Não existia moleza, nem magia nessa Terra: só criatividade, força, ritmo, sedução, dialética, espontaneidade e esperança.

Às vezes, as pessoas me olhavam na rua como se eu fosse um cachorro, um canalha, por ter possuído aquele corpo. Pobres estúpidos! Não sabem que, antes, aquele corpo não tinha alma senão a minha, que eu nem cedia por inteira.

Transparent Flesh

modelo Theo Barreto
fotos João Maciel & Rafael Medina
direção criativa Rafael Medina
texto Theo Barreto
agradecimento Casa Nem, Indianara Siqueira & Thiago Bassi